sábado, 4 de junho de 2016

Aguadas

as palavras estão aí
o tempo todo
mas às vezes

umas pingam na cabeça
molham o coração
e correm livres nos dedos

o papel guarda, aguarda
o que toca os olhos
e os movimentos das águas

Utente

sabe o amor, sabe?
ele não tem cabimento
não cabe numa joia
na palavra
nem no peito

sabe o amor, sabe?
ele transborda
ilumina a alma
alimenta o corpo
pulsa o coração

o amor?
ele precisa
o tempo todo
do outro mais um

e é nos pequenos momentos doces dos dias
que a gente constrói a abstração mais bonita


Desmagoadas

teu rio atravessou em mim
e lavou meu coração
tocou as águas mais profundas
e com toda a sua doçura
dessalgou as feridas
renovou a paixão
e fez elas correrem desmagoadas


sábado, 28 de maio de 2016

Ponto de vista

não era nada
era só um espaço
um vazio

mas dentro dele tinha tudo
havia um tempo
uma plenitude

e a luz


Alamedas

02

aos onze

começo da noite de um feriado, ruas sem ninguém. duas amigas tentam atravessar a rua pra brincar e conversar, mas uma moto não deixa. para do lado delas, bem no meio onde as ruas se encontram e o homem sem descer pergunta, vocês sabem onde fica a alameda 06? o corpo inteiro vai junto e se muda na intenção de ajudar, os braços apontam pro mesmo lugar, o tronco, antes deles os olhares. um se perdeu bem ali naquela rua. sabe aqueles shorts de praia com fundo grande? ele tentou apalpar, mas só sentiu o fundo. uma olha bem rápido pra outra e correm depressa, sem saber o rumo. coração na mesma velocidade da moto que arranca. chegam em outra rua qualquer e depois passam por aquele cruzamento onde tudo aconteceu. ele não tá lá. ele foi embora. lá não tem ninguém e mesmo assim elas continuam correndo. batem no portão de casa tão rápido quanto o coração no peito. esperam. cada segundo acossado do lado de fora. o portão é aberto, elas respiram juntas e se abraçam.

11

aos treze

depois da escola casa da amiga. quando o caminho muda coisas diferentes podem acontecer. ao invés de cortar ao meio toda a quadra com seus passos como era de costume pra chegar em casa, agora tinha que andar por uma rua que separava uma quadra da outra. já passava de uma hora da tarde. ninguém na rua. dia quente, daqueles com linhas de calor no asfalto. vários moleques entre doze e quinze anos passaram com suas bicicletas de tamanho médio, tipo"bike de malinha". eles passam falando alto, rindo e os sons distraem alguns sentidos e aguçam outros. tentar entender o que eles diziam ficou na cabeça, mas foi tudo tão rápido. um deles passa bem perto e com a mesma velocidade da bicicleta pega no peito dela, sente só o sutiã. nem de longe deve ter passado pela cabeça dele o que ela sentiu. o bojo não foi o bastante pra proteger a invasão do seu corpo, seus peitos pequenos até então só as mãos dela tinham sentido. ele nem chegou a pegar nos peitos dela de verdade, o sutiã foi na mão dele. os outros riam e comemoravam. mesmo assim ele conseguiu ultrapassar uma barreira tão profunda. alguns instantes foram precisos pra conseguir processar o que tinha acabado de acontecer. um dedo e um vão tomar no cu foi tudo o que ela conseguiu fazer. ainda conseguiu chegar em casa caminhando, de cabeça erguida como se nada tivesse acontecido, mas o coração batia rápido e as lágrimas rolavam soltas.